Acordei confuso, cansado, com o sol fustigando meu rosto. Xinguei numa voz quase inaudível, mais pelo fato de ser tirado daquele sonho maravilhoso do que pelo sol em meus olhos. Mirando a janela, me sentei na cama e tentei me lembrar dos detalhes do sonho.
Me lembrava do bar, dos amigos, das conversas divertidas, das piadas internas. Lembrei-me de ouvir Johnny Cash - "and it burns, burns, burns... the ring of fire" - e lembrei-me da cerveja gelada, do camarão ao alho e óleo. Mas o que eu mais me lembrava, definitivamente, era dela.
Amiga do meu amigo, havia chegado lá com ele. A primeira impressão que tive dela foi única. Fomos apresentados e senti uma coisa boa, não sabia o que e nem o porquê. Ela era tímida. Engraçado, eu não imaginava que fosse, devido ao jeito que falou com as pessoas quando chegou. Mas depois foi se calando, apenas sorria. Bob Dylan me dizia "the answer, my friend, is blowing in the wind". Meu amigo se entusiasmava com uma conversa, provavelmente sobre a situação do time de futebol no campeonato ou algo igualmente sem importância. Então resolvi puxar papo pra não deixá-la totalmente deslocada.
Nem tive tempo de me surpreender com a velocidade e a naturalidade com que os assuntos vieram. Nós conversávamos sobre tudo como se fôssemos velhos amigos e a noite ia passando rapidamente. Sabe aquela história de que o tempo voa quando você está se divertindo? Pois é, voa de Concorde. Ouvi Bernard Sumner cantar "I feel fine and I feel good, I feel like I never should", mas minha atenção foi desviada para a trágica visão do meu amigo vomitando no chão do bar.
Depois de deixá-lo em casa, fui levar minha nova amiga para a sua casa. Já imaginava como seria o término da minha noite: deitado na cama, escutando Joni Mitchell sussurrar depressivamente "all romantics meet the same fate someday", olhando pro teto e lutando contra a insônia que era minha companheira fiel de todos os dias. Me levantaria, acenderia um cigarro, olharia pela varanda as luzes da cidade, tentaria dormir de novo. Só conseguiria quando o sol já estivesse nascendo. Enfim, uma noite como todas as outras. Qual foi minha surpresa quando a moça me convidou pra tomar um café no seu apartamento, "em agradecimento pela carona", segundo ela.
Ela tomava café preto, puro, sem açúcar. Pra não fazer desfeita, acompanhei-a, mas logo acendi um cigarro pra disfarçar o gosto forte do café. Continuamos a conversar o que tínhamos começado no bar e, algum tempo depois - minutos? horas? quem sabe? - estávamos nos beijando. O que ocorreu em seguida foi uma confusão de bocas, línguas, mãos, pés - sim, pés - cabelos, ombros. Tudo na intensidade perfeita, nada desmedido. Uma das melhores noites da minha vida, daquelas que só acontecem em sonho mesmo. Certa vez John Lennon me disse "life is what happens to you when you're busy making other plans" e eu sei que ele não poderia estar mais certo. Quem ia imaginar que eu ia encontrar uma pessoa tão formidável hoje?
Voltando à realidade, a lembrança daquele sonho foi se desvanecendo, foi se enevoando, como acontece todo dia de manhã. Aquela sensação de vazio foi tomando conta de mim, Nick Cave martelava minha cabeça dizendo "all beauty must die". O sol nos meus olhos me cegava, então me virei para o outro lado.
Foi quando eu a vi ali, deitada na cama, o lençol cobrindo metade do seu corpo. Só então percebi que não estava no meu quarto, mas no dela. Vendo-a ali, dormindo um sono tranquilo, a boca contraída num sorriso de Mona Lisa e fios de cabelo desgrenhados no rosto, percebi que ela era mais bonita do que no sonho. Abri a boca pra falar baixinho, mas foi a voz de Caetano que saiu: "Você é linda, mais que demais... Você é linda sim".
Wasted by Tiago 11:24 AM
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