Era uma daquelas manhãs que aparecem frequentemente em desenhos de crianças: o sol brilhando no céu azul com poucas nuvens, pássaros voando, flores coloridas nos quintais. Sentado num banco de praça, lendo o jornal, estava eu. No banco ao lado, vi um senhor de boina, jogando pipoca pros pombos. É, eu sei, uma cena bem clichê, é verdade. Mas os clichês, assim como os estereótipos, têm que vir de algum lugar, não é? Quando a pipoca acabou e os pombos - aqueles interesseiros - voaram pra longe, o senhor se aproximou de mim.
-Dia bonito, né? - disse, de maneira afável.
- Sim, é verdade. - respondi.
-Alguma notícia interessante?
- Hã? Ah, no jornal. Não sei, eu só leio os quadrinhos e faço as palavras cruzadas. - disse eu, sem muita empolgação. Sempre me criticaram por pegar o jornal e não ler pelo menos um caderno.
- Fazer palavras cruzadas é ótimo para o cérebro, sabia? Eu costumava fazer com meu filho quando ele era mais novo. A gente sempre se deu bem, sabe? Meu filho e eu. Quando minha mulher, Deus a tenha, faleceu, eu não sei se teria conseguido aguentar sem o apoio dele.
- Acho isso muito bonito. Mesmo.
- Você tem filhos?
- Não, não tenho.
- É uma alegria, sabe? A sensação de segurar seu pimpolho nos braços é indescritível. É muito trabalho, isso eu não vou negar. Noites em claro, preocupação constante com a saúde, com a segurança, a educação... Você abre mão de várias coisas, mas tudo vale a pena pra deixar seu filho feliz. E fica ainda mais difícil quando eles crescem... - e sua voz vacilou um pouco ao dizer isso.
- Senti um pouco de ressentimento nessa sua afirmação...
- Hm. Não, eu não tenho ressentimentos. Mas você espera que, à medida em que você fica velho, os filhos entendam o que você fez por eles, cuidem de você e não te abandonem.
- Pois é. Até porque carinho não se agradece, se retribui.
- Bem verdade, isso.
- Então, o seu filho... o abandonou?
- Hein? Meu filho? Oh, não, ele sempre foi o melhor filho do mundo. Ligava sempre, visitava quando podia, levava a esposa e os filhos pra almoçarem lá em casa...
- Mas por que o senhor falou sobre os filhos abandonarem os pais quando eles ficam velhos?
- Ah, isso? Não, eu só tava resmungando. Você sabe, quando a gente fica velho, fica mais rabujento. Hehe.
- Entendo.
- Meu filho é ótimo, sempre foi. Ele até pagou pelo meu funeral. Ficou arrasado quando eu morri, o pobrezinho. Eu sei que ele vai sentir minha falta, mas também sei que vai ficar bem no final das contas.
- É, geralmente é assim que acontece. Então, o senhor sai dessa vida sem arrependimentos?
- Nenhum! - afirmou com convicção.
- Que bom, então. Vamos indo?
- Sim, vamos.
Ambos levantamos do banco, pousei minha mão sobre seu ombro esquerdo e nos pusemos a caminhar.
Wasted by Tiago 10:46 AM
Tem duas coisas importantes na vida: o MOTIVO e o MOMENTO. Se você estiver com alguém pelo simples motivo, curta bem o momento, pois você poderá voltar pelo mesmo motivo, mas NUNCA será o mesmo momento!